os textos aqui apresentados são redigidos em desacordo com o Acordo Ortográfico #AO90







domingo, 21 de fevereiro de 2010

às vezes gosto (muito) do que escrevo!

Os (teus) sapatos do Van Gogh

«Há formas diferentes de se assinalar uma presença na vida de alguém. Aliás, isto da presença é uma daquelas equações complexas que deixam os génios matemáticos à beira de um ataque de nervos (cabelos em pé, unhas roídas e coisas afins). Presença presente, ausência presente, presença ausente, ausência ausente – são expressões que me deixam a mim com os cabelos em pé (porque não tenho o hábito de roer as unhas). Agora que me sentei aqui à beira da tua cama, olho para os teus sapatos ali ao fundo e pergunto-me de que forma eles representam a tua presença (ou ausência).

Engraçado! Lembrei-me agora do quadro do Van Gogh, aquele dos sapatos… tens ideia? Houve uma altura em que investiguei a essência da obra de arte, e através de lentes heideggerianas olhei e olhei e voltei a olhar aqueles sapatos.
Mas ao olhar para os teus, não há Heidegger que me valha. Porque a obra de arte que aqueles sapatos representam é alguém que me é próximo, cujo respirar eu consigo ouvir, cuja face posso tocar, cujos lábios gosto de beijar. Por isso, caro Martin, não me podes valer em toda a tua teoria e prática sobre a estética. Nem tu, nem mesmo o Hegel (mas podem continuar a enviar cupões…).
Se calhar é melhor calar os meus pensamentos, secar o cabelo e vestir-me. Está um dia inteiro lá fora, à minha espera e a marca da tua presença terá que se colocar a caminho do trabalho e da rotina.»

Projecto Olhar a Palavra

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