os textos aqui apresentados são redigidos em desacordo com o Acordo Ortográfico #AO90







sábado, 6 de fevereiro de 2010

não sei se dura sempre esse teu beijo [Sérgio Godinho]

Cansados vão os corpos para casa

Dos ritmos imitados doutra dança

A noite finge ser

Ainda uma criança de olhos na lua

Com a sua

Cegueira da razão e do desejo

A noite é cega, as sombras de Lisboa

São da cidade branca a escura face

Lisboa é mãe solteira

Amou como se fosse a mais indefesa

Princesa

Que as trevas algum dia coroaram

Não sei se dura sempre esse teu beijo

Ou apenas o que resta desta noite

O vento, enfim, parou

Já mal o vejo

Por sobre o Tejo

E já tudo pode ser

Tudo aquilo que parece

Na Lisboa que amanhece

O Tejo que reflecte o dia à solta

æ noite é prisioneiro dos olhares

Ao Cais dos Miradoiros

Vão chegando dos bares os navegantes

Amantes

Das teias que o amor e o fumo tecem

E o Necas que julgou que era cantora

Que as dádivas da noite são eternas

Mal chega a madrugada

Tem que rapar as pernas para que o dia

Não traia

Dietriches que não foram nem Marlénes

Em sonhos, é sabido, não se morre

Aliás essa é a Única vantagem

De após o vão trabalho

O povo ir de viagem ao sono fundo

Fecundo

Em glórias e terrores e aventuras

E ai de quem acorda estremunhado

Espreitando pela fresta a ver se é dia

E as simples ansiedades

Ditam sentenças friamente ao ouvido

Ruído

Que a noite se acostuma e transfigura

Na Lisboa que amanhece


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