os textos aqui apresentados são redigidos em desacordo com o Acordo Ortográfico #AO90







sexta-feira, 24 de setembro de 2010

sem escolha

Não sei viver com base nas escolhas. Custa-me muito decidir pelo sim ou pelo não. Chego a hesitar quando se trata de escolher entre um gelado de baunilha ou de chocolate. Não posso ter um pouco dos dois?

E o cinzento? Não é muito melhor do que ter branco ou ter preto?
E isto consome-me, sei que consome a minha alma por dentro. Viver sem ter um caminho, porque quero os dois, ou quero que os dois sejam um…
E tu não estás a ajudar. Não me ofereces uma escolha: dás-me mais e mais, sempre em duplo caminho, duplo sentido. A tua quase esquizofrenia encanta-me e atrai-me. Ainda que eu saiba que essa atracção será a morte do artista. Neste caso, a minha.
Ofereceste-me um lugar duplo na tua vida, pedes-me para ser a outra e a namorada, sem que eu tenha, nunca, em momento algum, que escolher. E como isso me agrada e me deixa feliz. E serena. É toda uma tranquilidade da alma. Não ter que te levar a festas de aniversário, não ter que fazer planos contigo. Porque hoje sou a outra e não é suposto que te conheçam. E amanhã, que sou a namorada, tu estás ocupado com a família.
Poderia eu querer mais? Uma escolha dupla, sem compromisso. Sem imposições, sem exigências. Apenas dois corpos que se unem, quando a vontade assim o entende, de forma crua, com o pacto do prazer a ditar o quando e o como.
Não sei viver com base nas escolhas e sei que não te escolhi. Mas quero-te.



Texto de Joana Sousa

Fotografia de João Paca
projecto Olhar a Palavra para a Fábrica de Letras

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