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sexta-feira, 10 de junho de 2011

do elefante desassossegado - menção honrosa na categoria texto

Sento-me e escrevo. Digo não à inércia que me procura visitar e transformo esse não no sim, nestas linhas, observando as palavras que nascem no papel.

Troco a tal inércia, aquela, esta aqui, pelo desassossego da vida. Sim, quero viver desassossegadamente. Elevar o desassossego a categoria metafísica. Homo desassossegatiens – a nova espécie. Imediatamente a seguir ao sapiens. Da sabedoria ao desassossego: eis o caminho, a viagem.
Sim, quero encher-me de desassossego. Encher-me e inchar-me. Crescer. Ganhar tamanho no meu ser. Tornar-me grande, enorme como o elefante. E viajar, com o destino ditado pela voz que oiço na minha cabeça e me segreda isto e aquilo. Pesada, vou procurar subir à montanha. Essa será a viagem maior. Porque sou um ser pesado (eu sou o elefante) e sei que a caminhada me vai demorar tempo. A caminhada vai ensinar-me a saber esperar. A esperar o quê? E subir a montanha? Para quê? Porquê?
Não sei ao certo. Mas sei que nós sabemos, tantas vezes, mais do que aquilo que julgamos. E podemos muitos mais do que imaginamos. Portanto, há que seguir caminho. Viajar. Subir a montanha. É uma viagem pesada, mas é uma viagem possível. E o impossível surge como uma possibilidade. E a possibilidade é uma espécie de porta escancarada, que nos permite ver para lá do espaço em aberto. Vemos o pedaço do todo. O pedaço da montanha. E imaginá-lo? E imaginá-lo.
A minha viagem à montanha. Eu, o elefante pesado, desassossegado, cheio de mim. E dos irónicos eus que me habitam, que me provocam este excesso de ser.
Estou aqui porque disse não. Porque quero ser o desassossego. Reparo que estou, ainda, sentada a escrever, ao invés de estar a subir a montanha, viajando. Mas permito-me viajar com o elefante, sem nunca abandonar esta cadeira de madeira, que faz uns barulhos quando nela me encosto. Barulhos que são os mesmos que eu faria ao pisar os pequenos troncos e folhas secas do caminho.
Viajo na e com a minha imaginação. Tenho ideias, coisas, pensamentos, à espera de uma oportunidade, de uma viagem, para ganhar a vida, o desassossego. Sento-me e escrevo. O título.
Viagem com o elefante. Não. Viajem com o elefante, num tom de conselho. Um conselho imperativo, porque assim o exige a viagem. Exige-me a mim e a todos nós, a todos os que se deixam encher e inchar pela vida.



- o texto foi escrito a propósito do passatempo do Projecto A Viagem do Elefante. tive direito a uma distinção, menção honrosa na categoria texto. a inspiração surgiu do livro de Fernando Gómez Aguilera, José Saramago nas suas palavras.


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